quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

feliz 16 de dezembro

Nesse momento, enquanto eu encaro o teto e fumo um cigarro, as coisas giram lentamente lá fora lentamente é o que eu acho ou finjo achar, só pra me manter mais calma ; mas todos os corações sabem, e não contam pra ninguém, que o mundo gira tão rápido quanto à coisa mais rápida que já se ouviu falar. Durante a noite a velocidade ganha mais força. Durante a noite e a ausência. Parece que num piscar de olhos se passa um ano. Os meus anos têm passado como piscadas há tempos e eu tento fingir ter calma, e paciência, pra não desesperar ninguém. Sem saber, ou fingindo não saber, que o desespero de todos não vão embora; ele permanece. O desespero monstruoso vai crescendo, e crescendo, em minhas vísceras. Quando o sinto tocar a minha língua querendo se transformar em palavra, por costume, sorrio. Todos acreditam no sorriso e eu, egoísta que sou, guardo o desespero só pra mim.

Pronto.

Ponto.

Mais uma cena com final feliz.

Nesse momento, enquanto eu encaro o teto e rôo as unhas já não tão apresentáveis , me pergunto: quantas pessoas, agora, roem unhas por pura aflição? Não sei; e por um segundo meus pensamentos se calam. Instantes depois, sem perceber, repito a pergunta, em voz alta, como se minha voz quisesse acordar os pensamentos que dormem. O silêncio invade o quarto. Ao passar do tempo ele vai se tornando incômodo, cada vez mais incômodo, como se uma agulha fina entrasse e saísse da minha pele. Não dói, a agulha é fina; mas incomoda. Acho que eu queria ouvir alguém gritar: não, garota, você não é a única patética que encara o teto e rói unhas e fuma cigarros por desespero. Mas eu não ouço nada além dos ecos da minha própria voz. Às vezes ouço o barulho da unha sendo roída. É estranho, quase um grito por socorro. Acho que elas querem dizer que eu não sou a única e que se elas não fossem apenas unhas elas fariam toda essa merda, como eu.

Nesse momento, enquanto eu encaro o teto e tento não pensar em coisa alguma, alguém bate na porta.

Silêncio.

Eu não respondo. Eu não respiro.

Quero que eles todos pensem que eu estou dormindo e que não devem me incomodar. Deveriam não me incomodar quando meus olhos estão abertos também. É nessas horas que eu preciso de sossego, ver e enxergar requer muita atenção. Eu sei que um dia ainda hei de enlouquecer pelo o que hei de ver com os meus próprios olhos, e não há de ser nada demais, apenas será denso. Tão denso, e intenso, que acordará meu desespero que, por sua vez, invadirá minha boca numa ânsia, enorme, por liberdade. Não terei forças para sorrir ou segurá-lo; falarei. O deixarei livre para ser palavra.

Pronto.

Ponto.

Mais uma cena - essa sem final feliz.

As palavras são malditas. Desgraçadamente malditas. Todas. Não há coisa mais ofensiva do que saber falar. As palavras já ditas jamais voltarão para dentro da boca e os estragos jamais serão desfeitos.

É nessas horas que eu morro.

É nessas horas que eu encaro o teto, rôo as unhas, fumo os cigarros e formulo as perguntas - ao mesmo tempo.

É nessas horas que eu penso que enlouquecer chega a ser quase nada perto de todo esse caos.

Nesse momento, enquanto eu encaro o teto e tento, tortamente, escrever meus temores num pedaço de papel, eu creio: não há salvação.

Nenhum comentário: