quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O dia de 33 horas

Eu tenho exatamente duas horas pra dormir.

Meu corpo ta cansado, minha mente ta cansada, minhas mãos não suportam mais escrever, mas os olhos se recusam a se fechar. Eu tento qualquer coisa, útil ou inútil, pra acalmar o desespero ou qualquer coisa que o valha.

Eu não consigo.

Essa merda de sensação ruim não passa.

Os olhos não se fecham e parece que a cada vez que eu olho pra essa luz, já escassa, minhas pupilas tendem a se dilatar. Eu queria era dilatar o peito, sei lá, abrir a cabeça e colocar os pensamentos em ordem; mas eu sei que amanhã, quando eu acordar - se eu conseguir dormir -, os pensamentos estarão despenteados outra vez. Amanhã tudo vai estar igual. E vai ser igual na porra do próximo ano também. Não sei nem porque acabar com esse; não foi útil, não foi mágico e não teve um pingo de emoção. Sem emoção não tem graça, não tem vida.

É só o gozo, sem tesão.

Apenas resultado.

Sem vontade alguma, sem uma lasca de desejo. Que fosse desejo sujo, banal, hipócrita, eu não me importaria. Podia ser a merda de uma lasca de desejo mesquinho. Aquele desejo que só aparece quando você vê que o outro tem e você não.

Eu odeio as pessoas.

Simplesmente porque elas sabem amar e ser amadas; eu não sei.

Não sei nada e não me prontifico a aprender esse nada tão sem nexo. Mas quando eu vejo que as pessoas sabem, e são felizes por saberem, eu induzo um desejo porco aqui dentro. E então eu tento fazer e conquistar e querer e ficar sempre perto - a todo custo. E eu sou tão leiga no assunto que só faço afastar, assustar, mandar embora.

Eu tento sumir, às vezes, como se longe dos olhos as coisas mudassem de forma, como se apenas por me enterrar entre as cobertas o monstro da solidão desistisse de me assustar e fosse embora.

Eu odeio a solidão.

E odeio, mais que tudo, as pessoas que me deixam só.

Eu sei que eu não tenho nada a oferecer e que não sou como as outras garotas, que eu sou complexa e sarcastica e, às vezes, até desumana com os sentimentos que não são meus.

Mas eu sou uma boa menina, eu juro.

Mesmo sendo egoísta eu sou uma boa menina.

Eu também choro quando as luzes se apagam; mas não por medo, por alivio. No escuro é impossível enxergar o meu corpo sozinho e então eu junto uma mão com a outra e sou feliz. Sou feliz quando sonho também, lá as coisas acontecem com facilidade e eu não preciso me explicar ou me fazer entender. Lá ninguém me censura ou me tenta. Lá, no sonho, eu consigo me ser sem ser necessário usar mascaras.

Eu uso mascaras.

E às vezes são tantas que fica difícil encontrar meu rosto.

Me perco.

Me esqueço.

Me encho de fumaça.

Encaro o espelho e só vejo os olhos embaçados pela fumaça e pelas lagrimas. Lagrimas embaçam os olhos quando deveriam limpar tudo, como a água faz. Lagrima é água. Mas não é água normal, é água temperada e o tempero muda tudo. Não estou me referindo ao sal, me refiro, única e exclusivamente, ao motivo amargo que faz com que elas brotem dos olhos.

Já se passou meia hora e não tenho previsão pra um suposto sono.

Ele não vai aparecer. E nesse fim de noite, e começo de dia, eu vou me maldizer noventa vezes por ter dito o que não era necessário dizer. Sentir eu posso, mas dizer é perigoso demais e eu sempre me inclino pro lado do perigo.

Talvez eu suma por uns dias.

Mas quando eu voltar eu quero tudo diferente, pode ser?

E não quero que as pessoas perguntem o que aconteceu ou se eu estou bem. Eu odeio me explicar, mas sempre o faço.

Essa porra de vontade de ser como todo mundo, pra poder amar e ser amada, me faz querer ser o que eu não sou. Então eu me explico - meio a contra gosto. Justifico cada passo dado e cada palavra dita. Me desculpo por tudo e me sinto invasora de espaços.

Tudo um saco.

Tudo um porre.

Eu preciso é comprar cigarros bons pra deixar em casa.

Preciso, urgentemente, voltar a viver pra dentro: ler, escrever, ouvir musica, ler, escrever, ouvir musica...

Pra dentro.

Pra beleza interior.

Pra plenitude interna e nada mais.

Não mais.

Nunca.

Nunca mais, caramba!

Aprenda, meus queridos: um amor platônico NUNCA deve sair do platonismo.

Bom dia.

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