sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

seu filho feio e louco

As vozes são reais.
As vozes sabem o que dizem.
E elas não vão parar, querida.
Elas não param nunca.
Só aumentam e enlouquecem e estraçalham qualquer indício de qualquer coisa. Elas invadem e machucam e corroem tudo quanto é prova plausível.
As vozes são reais.
Não é nenhum fantasma bizarro que te acompanha, nem um anjo que lhe guarda do mal. Ela é a sua consciência estúpida falando.
Ela fala a verdade em seus ouvidos, não é, meu bem?
Eu sei; a consciência sempre fala, sempre fode e nunca falha. Foda-se o que as pessoas dizem por aí, foda-se o que elas vêem. Você é a única que sabe a verdade e isso lhe é suficiente pra findar qualquer possibilidade existente.
Você sente essa pontinha de tristeza que sempre vem acompanhada de frustração.
Você quer colocar o dedo na garganta e vomitar essa voz, vomitar o sentimento e essa confusão que lhe impede de sair de onde está.
Você está podre por dentro.
Tão podre que se pudesse se auto-destruiria para que todas as pessoas pudessem ver sua verdadeira face. Essa carinha bonitinha não passa de uma embalagem qualquer, o que tem dentro é ralo, é podre e muito, muito, triste. E você tenta ficar em paz, tenta se erguer sozinha quando descobre que está jogada no chão. Mas é difícil, não é? Sempre tão difícil. E você ainda diz, a todos, que se soubesse não teria feito, que se soubesse que iria acabar no chão não teria saído dessa sua redoma de vidro tão segura.
Impossível, meu bem.
Totalmente.
Completamente.
O problema dessa maldita queda é que a gente só percebe que caiu quando já está no chão. Só então a dor te corta, o desespero te dilacera, a boca é tomada por um amargo quase conhecido e a ânsia se torna inevitável.
Enfia logo esse dedo na garganta, pra vomitar as palavras não ditas, garota.
Sem êxito?
Sem êxito?
Pois é...
Dessa vez você não as poupou. Dessa vez você disse tudo, mas do que devia, e ainda repetiu por medo de mau entendimento.
Burra! É isso que você é, criança: burra; estúpida; uma criança ingênua.
A brincadeira se resume em cometer o crime e não se entregar, entendeu?
Você sempre se entrega, sempre conta os detalhes e mostra as armas manchadas pelo sangue alheio. Dessa vez você viu o seu sangue enfeitando a faca.
Qual a sensação, hein?
Qual a sensação de morrer do próprio veneno?

O seu veneno não mata, gracinha...

Seu veneno só destrói, corrói, deforma. Seu veneno se resume em jogar o outro no chão apenas com um sorriso. Parabéns! Parabéns pelo sorriso matador. Agora é você quem está quase morta, é você quem se contorce, puta da vida, no chão. Imagino como sua cabeça deve estar em transe, querida. Os pensamentos devem estar se debatendo sem entender o que aconteceu.
“Como me deixei envolver?”
É essa a pergunta que te soca a cara, não é?
E eu te respondo, gatinha: você não deixou porra nenhuma, você não tem poder algum. Já haviam lhe avisado que, mais dia menos dia, as armas ficariam escassas. Pronto, acabou. Você não tem arma alguma, vive pela piedade alheia, vive rezando, pelos cantos, por uma pouco de amnésia ou qualquer esquecimento passageiro. Você quer esquecer, eu sei. Mas esquecer o que, querida?
Você nem sabe o que te move.
Você sabe que sente alguma coisa, mas nem sequer sabe nomeá-la.
E o pior de tudo: o assassino sabe que te acertou. Sabe que você esta no chão e que, agora, prova uma dose do que injetava nos outros. Ele, com um sorriso no rosto, ainda estende a mão e diz que se você quiser ele retira todo o veneno que vaga no seu sangue.
Tão igual a você, não é, gracinha?
Mas ele retira só se você quiser, ok?
E acredite, criança, ele tem esse poder. E é isso que fode, não é? É ver que ele tem o poder e você não. É ver que ele pode mudar a história toda num segundo enquanto você depende do maldito segundo pra que a sua história mude. Você quer, mesmo, é pegar o poder da mão dele e fazer tudo girar de acordo com a sua vontade, eu sei. Mas essa possibilidade, queridinha, não existe. É simples: ou você fica no chão ou aceita a espera por segundos.
E alguma coisa, dentro de você, diz que se ele se prontificar a amar, um pouco que seja, você aceita morrer todos os dias. Morrer nos braços do assassino, nos lábios. Se perder na boca que te consome e no corpo que tanto deseja. Poderia ser assim, mas você entregou o jogo antes da hora. Jamais se deve dizer o que sente, meu bem. JAMAIS! Quando a vontade de ser sincera lhe alcançar a boca você deve gritar por mais uma dose e beber até esquecer.
Me escute, garota. Me escute, pois eu sei muito bem o que eu digo.
Vá pro banheiro e tente vomitar esse bolo que ta preso na sua garganta.
Fume se quiser.
Grite se quiser.
Tome um banho pra tentar limpar a alma suja.
Faça qualquer coisa.
Qualquer cafonice, desesperada, de garota apaixonada, também é valida, ok?
Só não quebre o espelho, e nem pense em por as mãos naquele maldito telefone.
Ele não precisa saber o quanto você precisa que ele saiba.
Ele não precisa saber de nada.
Ele não quer saber, querida.
Vocês não combinam, meu amor.
Não vai dar certo, acredite em mim.
A idéia de desfazer o feito só o ajuda a se afastar do que ele não quer. Ele não quer querer e não quer que você queira. Ele não quer e ponto. Nunca quis.
Faça o que você achar que deve ser feito, te dou total liberdade pra enfiar o dedo na garganta quantas vezes quiser.
Vá. Tente vomitar a porra de sentimento, os pensamento, a podridão que te consome.
Faça tudo; mas eu não vou sumir.
Eu sou real, querida.
Eu sou real e sei, muito bem, tudo o que lhe digo.

Um comentário:

Amanda disse...

admirável e sempre ótimo.


=***